domingo, 26 de maio de 2013





 

No livro “Código de Inteligência” (1998) Augusto Cury revela sua perspetiva da
psicologia positiva se bem que não lhe faça uma referência direta.
Ele chama de “códigos” às funções da inteligência ao que poderíamos também
chamar de códigos da psicologia positiva numa óptica da psicologia multifocal.
Esses códigos são os alicerces das inteligências múltiplas e do comportamento.
Necessitam ser decifrados, desvendados os seus matizes. Só assim poderão ser
treinados. O autor acredita que “se forem bem trabalhados, os códigos da
inteligência podem levar uma pessoa alienada a perseguir projectos de vida
fantásticos, transformar um funcionário comum num executivo brilhante, um
eleitor tímido num político extraordinário, um péssimo amante numa pessoa
afectuosa, um estudante desinteressado num pensador notável”. Vejamos.

1º O Código do Eu como gestor do intelecto
O código do Eu remete-nos para a consciência de que devemos ser autores da
nossa vida, assumindo escolhas e controlando as decisões. Essa é a melhor forma
de gerirmos o impacto dos estímulos (desde os nossos pensamentos ao marketing
que nos tenta persuadir) sobre a nossa vida.
Como recorda Augusto Cury, o Eu representa a nossa autoconsciência (o que
somos), a nossa identidade (quem somos), o nosso papel social (o que fazemos) e
a nossa localização no tempo e no espaço (onde estamos). Este Eu baseia-se em
todas as informações e experiências arquivadas no cérebro, a partir da vida intrauterina.
E. Berne, pai da Análise Transacional, defendeu que existem em nós 3 instâncias
psicológicas a que chamou de “Eu Pai” (o que aprendemos), o “Eu Criança” (o que
sentimos) e o “Eu Adulto” (o que somos). O que aprendemos influencia o que
sentimos e os dois influenciam quem somos.
Quando o “Eu Pai” - que representa toda a educação que tivemos – é repressor e
austero pode nascer em nós uma criança frágil e submissa que poderá tornar-se
num adulto infeliz. Muitos adultos são “crianças com um Eu fragilizado”, tornandose
submissos ou rebeldes. Diz Cury: “As armadilhas em que o Eu se envolve
determinam o sucesso ou o comprometimento da formação da personalidade e
das suas capacidades”.
Devemos então desenvolver “a arte da dúvida e da crítica”. Só assim podemos
filtrar os estímulos stressantes sociais, orgânicos e psicológicos, melhorarmos a
nossa qualidade de vida e ficarmos mais fortes.

2º O código da autocrítica – pensar nas consequências dos
comportamentos
.

Trata-se de uma aptidão relacionada com o que o filósofo grego Aristóteles
chamava de “juizo” e que ele dizia ser “uma das faculdades da alma, obra do
pensamento e da sensação”.
Entende-se que um indivíduo dotado de sentido crítico “é aquele que possui a
capacidade de analisar e discutir problemas inteligente e racionalmente, sem
aceitar, de forma automática, as suas próprias opiniões ou opiniões alheias.” -
escreve o professor de psicologia David Carraher.
O sentido crítico pode também ser definido como “um processo de formação de
uma opinião ou conclusão baseada em informação acerca de uma situação e,
idealmente, chegar a uma conclusão que pondera e reconhece os elementos
importantes do tema” - dizem os psiquiatras Paula Trzepacz e Robert Baker.
O sentido crítico resulta de uma conjugação de factores relacionados não só com a
inteligência mas também com a personalidade, o humor, capacidades cognitivas
diversas e circunstências da vida, podendo ser afectado por factores culturais e
sociais. Mas a sua relação com a inteligência é muito grande. De tal forma que as
pessoas com défices e atrasos mentais, não sendo geralmente capazes de
pensamentos abstractos, apresentam uma capacidade muito limitada de formular
juizos.
As características da pessoa com sentido crítico são as seguintes: - alta habilidade
para pensar criticamente e lógicamente; - uma atitude de constante curiosidade
intelectual; - crítica de si mesmo e dos outros; - gosta de investigar e fazer muitas
perguntas; - entende com facilidade princípios gerais; - não é propensa a aceitar
afirmações, respostas e avaliações superficiais; - revela habilidade na
compreensão da estrutura de argumentos em linguagem natural; - é capaz de
fazer a distinção entre questões de facto, de valor e questões conceituais; -
mostra habilidade para penetrar até ao cerne de uma discussão ou debate; - tem
geralmente um sentido de humor desenvolvido.
Para Augusto Cury, este código da inteligência é “o código de quem se auto-avalia,
de quem pondera os seus actos, avalia os seus comportamentos, se ajusta, se
autocorrige, reflecte sobre as suas reacções e faz conjecturas sobre si mesmo”.
Ele destaca o “pensar antes de agir” afirmando que é uma das ferramentas mais
nobres de quem decifra os mais altos níveis do
código da autocrítica e então sugere que se pratique a Paragem Introspectiva, o
Silêncio, a Humanização nas relações sociais e ao mesmo tempo o evitar reacções
instintivas (que pode ser animalesco e destrutivo) e não se ser escravo do que os
outros pensem ou falem de nós.

3º O código da Psicoadaptação ou da Resiliência
Para Cury, este código tem a ver com a capacidade de sobreviver a tensões,
pressões, intempéries e adversidades. Ele a considera um dos códigos mais
notáveis da inteligência.
Quando esse código está pouco desenvolvido as pessoas suportam de forma
inadequada as crises da vida podendo atirar as suas vítimas para o que ele chama
de “suicídio imaginário” (desejo de desaparecer ou de não mais acordar), o
suicídio físico ou o suicídio psíquico (através de dependências como as drogas, o
alcoolismo, comportamentos auto-destrutivos e auto-abandono).
A psicoadaptação exige que as pessoas sejam capazes (aprendam) a não se
submeterem às derrotas, a usarem os problemas como oportunidades, a
expandirem a tranquilidade, a compaixão e a tolerância, a desenvolverem a saúde
psíquica para se protegerem das adversidades próprias da vida.

4º O código do Altruismo
Aqui reside o segredo da afectividade social. É, para Cury, o código que “expressa
a grandeza da alma, a generosidade, a bondade, a compaixão, a indulgência e o
desprendimento”.
O exercício deste código leva as pessoas a desenvolverem a paixão pela
Humanidade e a capacidade de se colocarem no lugar dos outros para
“perceberem os seus senrtimentos e desvendar as suas necessidades”.
É um código que se aprende praticando e não ouvindo lições de moral e civismo.
Por isso, Cury sugere que se descubra o prazer de doar, de tratar e de proteger os
outros; que se participe em actividades sociais e ecológicas; que se pratique o
silêncio e se previna a hipersensibilidade (não vivendo a história dos outros, nem
a sua dor e não os superprotegendo).

5º O código do Debate de Ideias
Como nascem as ideias? Eis uma pergunta a que ainda não sabemos dar uma
resposta que não seja do senso comum: as ideias nascem das trocas de energia e
informação que ocorrem no cérebro. Para elas contribuem também a dialógica
cultural e a efervescência cultural (Edgar Morin). Ou seja, as ideias são
construídas pelo cérebro mas têm uma forte origem externa. É da interacção com
o ambiente, e em especial a sociedade, que nascem as ideias.
Para Augusto Cury, este código é o alicerce do processo de formação de
pensadores, aquele que “habilita a trabalhar em equipa, a interagir, a trocar
experiências”. É o código que, bem aplicado, dá prioridade ao debate e à arte da
dúvida.
Mas o debate de ideias necessita de democracia e liberdade. Por isso, as
perguntas e as dúvidas devem ter direito a resposta e a novas perguntas e
dúvidas. Para isso temos de permitir e instigar as pessoas a expressar os seus
pensamentos.
Cury recomenda que, além de expressarmos o que sentimos e pensamos com
respeito, devemos treinar o diálogo em equipa, provocar a inteligência dos grupos,
exercitarmos a exposição de ideias e libertarmos o imaginário deixando fluir o
raciocínio.

6º O código do Carisma
O carisma é uma palavra que descreve as qualidades, o comportamento e as
atitudes de alguém e está relacionado com uma série de atributos onde a
capacidade de liderança ocupa um lugar de destaque.Tony Buzan, autor de
diversas obras sobre inteligência, refere que a principal caracteristica do carisma é
a energia que permite à pessoa ter uma visão, uma missão, quaisquer espécies de
objectivos ou finalidades e saber transmiti-las aos outros de tal modo que eles
aderem com entusiasmo ao que lhes for proposto.
Na mesma linha de raciocínio, outro autor, Peter Sharpe, diz que o carisma é a
capacidade de fazer as pessoas ouvir o que dizemos de tal forma que elas
“animam-se com o que estamos a dizer, ouvem o que estamos a dizer e, o que é
mais importante, actuam de acordo com o que estamos a dizer da forma que
queríamos que actuassem". Pessoas carismáticas? Pois apontam-se geralmente
nomes como Nelson Mandela, Martin Luther King, John Kennedy, Gandhy, Obama
e muitos outros.
As personalidades carismáticas são, em regra, pessoas activas, peremptórias,
enérgicas e apaixonadas por aquilo que fazem. Possuem uma série de
características tais como: presença; confiança, energia e entusiasmo;
autodeterminação; convicções fortes; tendência para dominar; uma forte
necessidade de influenciar os outros; capacidade para sentir, intuitivamente, o que
os outros sentem; uma natureza extrovertida; e, perspicácia.
Por vezes, possuem também, características fisicas atraentes, uma voz dominante
e inesquecível, olhar hipnótico ou que prende e uma "aura" muito pessoal.
Para Cury é o código da capacidade de encantar, de envolver, de surpeeender, de
admirar os outros e de se admirar a si mesmo envolvendo a afectividade, a
amabilidade, a afabilidade e o romantismo existencial.
O autor sugere a “inteligência carismática” - a habilidade para encantar, para
surpreender os outros agradavelmente e cultivar diariamente o romantismo pela
vida.

7º O código da intuição criativa

É um código libertador da criança que há em cada um de nós. É o que nos permite
arriscar, ousar, aventurar e inventar respostas novas para problemas velhos.
A psicologia multifocal aceita seis tipos de raciocínio basilares: o raciocínio lógicolinear
(científico); o raciocínio histórico-social (que analisa os factos passados da
humanidade); o raciocínio histórico-social; o raciocínio histórico-psíquico (baseado
na memória existencial privada e na história psíquica de cada indivíduo); o
raciocínio de psicogestão (o do Eu enquanto gestor da psique); o raciocínio
existencial (que alimenta o pensamento filosófico, a arte da dúvida, a arte dsa
crítica e arte da contemplação) e o raciocínio esquemático (organizador dos
demais raciocínios).
A intuição criativa resulta do pensamento multiangular, aberto e divergente que
congrega os diferentes tipos de raciocínios.
A flexibilização da mente é a porta de entrada para a intuição criativa, um dos
maiores potenciais da mente humana, infelizmente tolhida por educação
repressora, castradora, crendices, ideologias e ideias feitas que adquirimos sem as
questionar.

8º O código do Eu como gestor da emoção

É o da inteligência emocional. É, segundo Cury, “o código que dá um choque de
lucidez nas emoções, recicla o seu controlo de qualidade, propicia terreno para
cultivarmos a tranquilidade, o prazer, o júbilo, o deleite e o usufruto existencial”.
O seu objectivo é dar-nos um controlo sobre os nossos sentimentos de forma a
encararmos com tranquilidade as sensações de insegurança, os temores, as
angústias, os ciúmes, a agonia e as aflições da vida.
Cury cita Steiner que atesta que “uma pessoa emocionalmente educada consegue
lidar melhor com situações emocionais complicadas que, potencialmente,
poderiam resultar em conflitos, fúria, mentiras, agressões e mágoas infligidas
mutuamente”.
Para chegarmos a ser capazes de dominar este código temos de aprender a
conhecermo-nos, a protegermo-nos de emoções desagradáveis, a desenvolvermos
a nossa autonomia, a impedirmos que invadam a nossa mente e a redesenharmos
o nosso estilo de vida para amenizarmos o stress e outros desgastes psicológicos
e orgânicos.

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