A ciência do otimismo
Nascida no fim do século 20, a psicologia positiva propõe uma mudança de postura
com conseqüências revolucionárias para essa área: estudar tanto o que vai mal
como o que vai bem na psique da pessoa, e extrair desse lado saudável os
elementos básicos para a cura.
POR EDUARDO ARAIA
Uma novidade está ganhando força na psicologia, e seu êxito pode significar
uma reviravolta e tanto numa área tão habituada a lidar com o lado escuro
da mente humana.
Intitulada psicologia positiva, essa corrente se baseia numa mudança básica
de perspectiva: em vez de se concentrar nas falhas de seus pacientes, os
profissionais preferem focar inicialmente as forças e virtudes dessas
pessoas. É a partir daí que os pacientes ganham condições de superar tanto
os obstáculos de agora como outros que poderão surgir.
A psicologia positiva é uma reação à tendência do sector de ressaltar
apenas os estados e aspectos negativos da psique humana. Essa tendência
- baseada na crença de que a virtude e a felicidade são estados inautênticos
e, em última instância, a pessoa acaba por voltar a um padrão negativo -
vem de muito longe, afirma Martin Seligman, professor de psicologia da
Universidade da Pensilvânia, Estados Unidos.
"A sua manifestação primeira é a doutrina do pecado original. Na sua forma
secular, Freud trouxe essa doutrina para a psicologia do século 20, na qual
ela se entrincheirou e permanece firme no pensamento acadêmico atual",
explica Seligman.
Segundo Alex Linley, professor de psicologia na Universidade de Leicester
(Grã-Bretanha), o problema também possui razões políticas e econômicas.
Após a Segunda Grande Guerra, o governo norte-americano investiu pesado
no estudo de distúrbios psicológicos, como o estresse traumático, a
ansiedade e a esquizofrenia.
Isso levou os pesquisadores a se concentrar nessas áreas de estudo,
situação que só mudaria nos anos 1960, com o surgimento da psicologia
humanística de Abraham Maslow. Mas esse movimento nunca penetrou no
mundo acadêmico e, depois, com o advento da psicologia cognitiva (o
segmento que estuda a percepção, o pensamento e a memória), ficou ainda
mais deslocado.
A falta de rigor científico típica de muitos adeptos da psicologia humanística
prejudicou a sua credibilidade ao mesmo tempo que fortalecia o setor de
auto-ajuda - uma distorção que a psicologia positiva busca corrigir. "Muitos
livros de auto-ajuda foram lançados com conceitos baseados em emoção e
intuição", comenta o psicólogo israelense Tal Ben-Shahar. "A psicologia
positiva combina isso com a razão e a pesquisa", explica.
Pesquisas apontam que o OTIMISMO é uma
habilidade que pode ser ensinada e
aprendida
UM desses estudos sobre o "funcionamento ótimo" das pessoas, realizado
com freiras idosas, revelou que aquelas com uma perspectiva positiva da
vida quando tinham entre 20 e 30 anos viveram até uma década a mais do
que as demais. Outro, com pessoas a quem se solicitou que redigissem um
diário todas as noites durante seis meses, registrando coisas que haviam
dado certo naquele dia, mostrou que seu desempenho em avaliações de
felicidade, otimismo e saúde física foi melhor do que aquelas que não
escreveram. Além disso, pesquisas apontaram que o otimismo é uma
habilidade que pode ser ensinada e aprendida.
Em 1998, Martin Seligman, em seu discurso presidencial para a American
Psychological Association, exortou a psicologia a voltar-se para "a
compreensão e a edificação das forças humanas a fim de complementar
nossa ênfase na cura de distúrbios".
A idéia prosperou: a Gallup Organization criou o Gallup Positive Psychology
Institute para patrocinar estudos na área e, em 1999, 60 pesquisadores
participaram do 1º Encontro Gallup de Psicologia Positiva. Em 2001, o
evento se tornou internacional e a cada ano esgota rapidamente as 400
vagas oferecidas.
EM 2006, o curso mais procurado por alunos não-graduados na faculdade
norte-americana de Har vard (uma das mecas do pensamento acadêmico
tradicional) foi psicologia positiva, com quase 28% a mais de inscrições do
que o segundo colocado, introdução à economia. Já existem mais de 200
cursos sobre psicologia positiva em universidades norte-americanas, além
de um mestrado na Universidade da Pensilvânia (orientado por Seligman).
Uma instituição de ensino público britânica - a Wellington College - incluiu
aulas de psicologia positiva e felicidade em seu currículo básico.
No artigo "The Science of Happiness" (edição de janeiro/fevereiro de 2007
da Harvard Magazine), o professor de psiquiatria George Vaillant observa
que no livro Comprehensive Textbook of Psychiatry (a "bíblia" clínica da
psiquiatria e da psicologia clínica nos Estados Unidos) "há milhares de linhas
sobre ansiedade e depressão e centenas sobre terror, culpa, raiva e medo.
Mas só há cinco linhas sobre esperança, uma linha sobre alegria e nenhuma
sobre compaixão, perdão e amor".
A psicologia positiva tem mudado isso, popularizando termos como
otimismo, resiliência (expressão da física que significa poder de
recuperação, grau de elasticidade), coracoragem, virtudes, energia, forças,
felicidade, perdão ou alegria.
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